café e dores

café e dores

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Não temos tempo a perder

Sente a densidade 
dos átomos 
Além dessa paz
Desgovernada 
a paralisar Multidões? 
O que se busca? 
O que nos sobra
Além das mãos ao peito
De momentos profanos 
E estrelas apagadas 
Céu tempestuoso
Os bolsos lacrados
Tudo avulso no poema
Dizendo algo 
Que nos faz duvidar 
Das leituras 
Das normas de conduta
O amor fere é dentro
Do buraco
E a gente se enfia 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Não nos vemos se não saímos de nós

Embora espécime 
Fogosa, atentava quanto 
Aos ruidosos arcos Iris 
Que surgiam de súbito 
Espelhados pelo reflexo 
Dos vidros expostos

Frajola dormia íntegro 
Parcela das manhãs, 
Tardes, e quando descia o sol 
Escalava quaisquer lugar 

Gostava de revirar gavetas
Chispava em espanto 
Do que se revelava, 
Ocultado por debaixo 
De globos solares 

Tinha certeza do apego 
A nos amargar olhares, 
Rasgava os tecidos 
Deitava sob a cama 
Na ausência dos corpos 

Livre e foguento 
Aos momentos de euforia 
Amava os cantos. 
Os buracos se enfiava feito cão. 
Mas era delicado, 
Se sabia da manha 
E reluzia muito. 

Ao fervor das pedras
Felino despojado,   
No inferno se dizia dos cheiros, 
Foi então que desvendei 
O maravilhoso cheiro
Na pele da nuca, 
Todas as flores na pele

Gostávamos de atravessar
O caminho mais longo 
Atentas às clareiras dos raios 
Os reflexos intensificados 
Por passagem lânguida 
Dos tons vertidos 
Pela manhã ensolarada 
Doíam diante 
Das banalidades 

Mediante às horas líquidas 
Frajola descobria
A ilha desconhecida 
No fundo 
De onde 
Não se pode chegar 
É preciso sair de si 

*título trecho O conto da ilha desconhecida, j. Saramago 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

você tem o jeito
das coisas plenas
deixadas pra admirar
quando o suor
escorre da cara
por favor
não me fale
que estou falando
de amor
novamente
deixada na cama
o conforto
e vícios pra lidar
é só por precaução
narrar aos que
sentem as veias
a gritar
um pouco do
seu gosto
de coisa leveza
além da confusão
dos plenários
e o incêndio na Candelária
os jornais censuraram
seu modo to be
agora só a figura
de sua estúpida calma
desgosto constante
a nos aglutinar
quando retorna à casa
é um modo de alma
descalça da rua
toda em agonia
a cantar

"roubaram o véu
das manhãs"

[sinto agora
os ventos da estação
repensada na pele
vestida de gestos

deitar 

esquecer
inflama
ânsia 

tardia

entregues atos
lentos e silenciosos
de fantasias criadas
em coro do sonhar

inverno lá fora
destoado das cores
a deslumbrar]

conduzido por águas transtornadas o ato de afogar

há um deserto
imensificado
de mágoa
em nossos corpos
desnutridos
das cores que
irradiam
dos dias nas peles
é sobre os comas
das palavras irreguladas
por chegar
e aconchegar
o corpo na ilusão
da leveza
das conduções
assim feito rio
as correntes
nas palmas 
vertidas de contusão
vestido de esperança
os beijos
os bailes
nossos corpos
amenos 
há um deserto
surtado
de instruções
no entanto
o movimento
recorte
à vida
pulsando 
por mares intransitáveis
é possível
deitar e trancar 
os olhos
deleitados
pela seca
impelida
de transbordar 
é que há um deserto
irreconhecível
instigante
nos conduzindo
a naufragar 

domingo, 18 de junho de 2017

eu que não saí de casa a bater porta e suprimi gritos engavetados atenta ao bafo do mundo pedindo que calasse a boca a qualquer gesto de afeto; vacilante quanto à sombra de antepassados desconhecidos, assino por causas de transtornos inexplicáveis dados às autoridades, essas que atrelam a mim responsabilidade por um mundo assombroso, entretanto ignoro-as em meu tribunal. carrego na face um susto profundo e assopro antes de levar à boca e mais outras besteiras que se ouve sem saber o porquê a gente aprende a resignar quando é hora de pisarem no seu crânio pedindo que sorria. luz lá na frente do buraco que você tá metida até início da próxima vida, mas veja se é possível permanecer impávida diante do poder dos solos, das águas, dessa potência de voz enterrada. as flores! perfume de lágrima, tão despida de armadura é então gentil relevo, veludo meigo as veias rubras, posso falecer esparramada entre o sedoso amor das pétalas e a sentença dos espinhos 

é preciso muito mais do que sumir. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

sal

estou triste
queria estar te recitando
os poemas de amizade
que li nos cadernos
e decorei
mesmo falhando
disposta a demonstrar
que o pensamento
te incide

suas mãos
distanciadas
ocultam as linhas
do destino
a nós costuradas

li nos poemas de Drummond
sobre a solidão
dos números
e das cores
Van Gogh sorriu
dizendo adeus

você desfalecia
não apenas na sombra
dos galhos
ou da ressaca
do outono no mar

seu pelo
em harmonia
arrepiando
as vezes no tom
dos músicos
velozes em seus dedos
no percurso
da estação

o vento da paisagem
entre tantos sinais
devagar a face
despida do amanhã
restaurada pelo
porta retrato

as vezes no ardor
da noite introvertida
só você de perfil
nas memórias
coberta de flores

estou triste
pois só recordar
o semblante
atravessado pela poesia
me faz querer chorar


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Tenho coisas importantes a falar mas antes disso já viu o tamanho da lua sob os corpos desatentos? É que o seu cheiro de erva daninha e o medo tudo envolvido no céu da noite fria. Todo Rio gargalhando da gente e as bocas desatadas, o barco lá no cais e a gente pisando tudo como um chão de amarelinha. Todos transando e os corpos estirados, ao falar das cores as transfigurações os invernos aproximados, talvez não tenhamos falado do futuro sendo onipresente o que se vê a essa hora na escuridão. Então se sente, bota um disco alto e vamos torrar o finzinho da memória que nos sobra, é que o amanhã nem se vê. Não tô conseguindo falar sobre o presentimento no centro das atenções desmotivadas por um frio que tá mais dentro do que fora, mas é que você tá inclusa, lá no fundo, pode escutar? 

Vamos recomeçar 

terça-feira, 13 de junho de 2017

Relicário

eu vejo como o mundo

te agride 

ladeira abaixo

dos instantes

insistentes em fazer

choro do que te toca 

é que o sol te ama

a lua e eu aqui miúda

te amando 

com a força veloz 

dos moinhos 

e das asas da libélula 


sei dos seus esboços 

mas pouco se sabe

da solidão 

te impregnando 

só essa sombra

queimada de fotografias

o muro de pedra

som dos seus pés 

indo rumo a nada

que nos constitua 

como um par 


e lamento que não 

possa enxergar

toda poesia 

que me faz te dizer 

como é lindo 

saber seus planos

deleitada sob o retrato

afundado pela manhã 

das horas não dormidas 

assim feita de aço

e lágrima seu peito

tão delicado 

seu sorriso

apagado na areia 

das estações 


sem que saiba 

decorei seu abismo

todos os destinos 

e seguiria contigo

mesmo que as palavras

além de nós

desfilem inibidas 

a busca de conforto

em lábio selado

assim deliro 

por seu gosto

como se preferisse

sua fonte inteira  

às águas do planeta 

ou todos os espaços

só coubessem

no buraco

que você se enfiou

e no qual me lancei

pra tentar te abraçar 

e dizer que tudo

basta calma

pra alma 

descansar 


posso te ajudar

a enfrentar o afeto

dos planetas em órbita 

as vagas impressões 

o desconforto do verão 

ao seu lado

enfim te transpassar 

além dos 

limites do corpo

repousar sua febre

no meu ardor

te ver passar 

mal sabe você 

o bem que faz 

te amar 


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Os dias feito nuvens
E uvas sem caroço
Flores mortas
Em tumulto

Morrer é como atingir
O hino das massas
Das gargantas
O coro do povo
Em demasiado amor

A eternidade
Assim pronunciada
Não atingiria o oco
Dos caixotes de madeira

As vagas não reduzidas
Lamento breve embriaguez
Brotariam de flores ao redor
Das cabeças

Morrer é
Um arrepio
Sutil
De alegria e dor

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Retratos: p1 

tenho vontade de 
receber uma mensagem 
ou carta
qualquer memória 
mesmo que o mar
longínquo submergisse 
das paredes 
acima da prataria 
de cima abismo
arrepia o braço
a coxa e o buraco
do anus 
gostávamos de rodear
os fogos
e os diálogos
atravessavam os matos 
cresciam os nus 
a correr disparados
de pés escorregadios 
a seca surgia 
no incêndio das matas 
os bichos voavam
velozes com asas esplêndidas 
o entorno esverdeando 
sufoco dos pulmões
calejados pela ordem
natural dos campos 
descobriram uma ilha
que já existia 
descobriram
o espaço
os contornos o corpo
nada entorno
só paredes secura
o estoque de lembrança
diluída pelo
branco solidão 

esperava uma notícia
distante os barcos
ameaçavam os rasgos
bandeiras e vitórias
escassas 
a terra viva
o rosto devasto 
as paredes mais paredes
vim do útero de uma guerreira

atravessamos fronteiras
das almas seguintes 
correndo por árvores 
o mesmo pau exposto na sala
em rijo
secando a mata queima
os retratos 
deviam enviar
alguma imagem
esverdeada
uma mente esquecida
no centro
das paredes 

desbravadas terras 
anunciadas feito virgens 
as matas cresciam e pêlos 
por entre as pernas
feito pantanal 
em tempos de festa
as cores no céu 
no oco dos olhos
os desbravadores
atentos ao abrir 
dos vãos
empunhavam as facas
e bandeiradas 
documentos ilegíveis 
às mãos  

receberia batida na porta 
do endereço 
esquecido
ninguém viria 
eu não estaria aqui
mas é então verdade
que existo

aguardando
poderia descontar
no tempo
enumerações intermináveis 
posso dialogar 
com a hora que passa
a todo leve grosso
aceno do peito
dolorido feito pluma 
pairava no centro
das paredes sequíssimas 

pairando no rio 
a água agita. agora sinto o corpo.
me toque. 
existe um rumo
que não pertence 
ao fim 
enfim um envio 
agora a carta dentro da palma 
arregalo e leio
em tom solícito 
uma mensagem do mar
atravessando as paredes
quebrado meu corpo
sangue
a gente foge! 

só figurinhas 
aquarelas desfiguradas 
cantiga sobre a memória
tão doce voz
canta a caixinha
entrar nas paredes
é tão ventania na tranca
afiadas as facas

acordo para um sonho
as memórias
retornando 
prefiro dormir. existo. 
estou presa nas paredes
úmidas 
todo corpo quente. queimo
feito papéis
todos foram torrados 
tudo que tinha
não sei porque vim 

Retratos: p2 

podemos percorrer
além das paredes

todas as memórias 

tudo entorno 
pacatas árvores 
plumagens ondulantes 
ríamos das lendas
de um povo apagado
não aqui dentro
do corpo
é que dentro do quarto
não alcançaremos 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

horizonte é pouco então



há um breve tempo


até chegar


ao patamar


mais alto


De tudo


que fomos


à busca


(encontrei Jesus


mas teus olhos


distanciados


pela elevada


solidão


proporcionada


por fins


e inícios


permanece vazio






poderíamos amiga


atravessar eternidade


embargada


poesia


na outra margem


do Rio






há espaço


aqui dentro


ocultado


há tão pouco tempo


que invento


modo de questionar


tu


muda


comigo


de lugar?





saudade


do tempo


a vagar


ao nosso lado


surgíamos


despidas da memória


do suor na goela


subitamente


de amor e


medo






sabíamos do aguardo


Em reflexo


sobre o que surgia


pelo receio


de colidir


atadas as mãos


se fôssemos


rezar


por amor


(Jesus


é um sentimento


criado


em vãos

domingo, 4 de junho de 2017

documentos são ilegítimos diante do que sentimos

nesse instante tive vontade
de agarrar o caderno
e te escrever um poema
falando das coisas bonitas,
daquelas no aguardo
a fim do sorrir
mais frouxo,
se por ventura acredita
nessa paixão,
no escuro,
receio de morte revelada
[em breve]
que te guardei
junto a recortes de instantâneas
felicidades incandescidas,
cuida desse zelo

[miro no lápis seu corpo
humilde]
e nos imagino unificadas
dadas aos sacrifícios da pele
rogando por semanas breves,
discursos afoitos,
e os vícios, alívio de quem sente

e sinto tanto por não oferecer
a seu prazer
consolo aos olhos
[todo dia]
estando tão nublado,
e vejo sua face mais uma vez
distorcida pela névoa
[me nega]
assim largo as folhas
e intento acompanhá-la

o girar dos dedos
com candura
é breve o
que teria a dizer
pra não saturar sua rotina
e a posse do destino
evocado pela esperança
remota de que
meu bem
rasgue os papéis
[o amor é vivo]