café e dores

café e dores

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Depressão


Meu corpo em transe. Meu corpo inerte. Planos de fuga a algum lugar desconhecido de culpa. Sentindo culpa por sentir. Sentindo a mim muito pouco. Estado de modo inquieta. Os cães ladram sem saber o porquê dos soluços no quarto, decorado com minha bagagem. Retorno de bolso oco. Como aqui dentro do corpo é imensurável. Dispo as feridas escondidas abrindo espaços, me ocupo. Me refiro a uma dormência me deito e reviro. Não durmo direito. Outra vez o mesmo buraco. Não caibo. Na superfície o ar espreme meus pulmões de carvão. Meu corpo sente tanto por tudo isso. E eu sinto muito novamente. 


"A depressão comeu meus livros empilhados em ordem alfabética, os romances em drama brasileiro, as novelas infinitas, meus contos engavetados em folhas de caderno. Devorou os frascos de perfume que soam vazios, os rótulos de cosmético sem validade, as raras vezes que senti ódio. Comeu minha paz dizendo solidão, condenou o medo que sentia sob acusação de pena, desgostou do meu gosto de gostar." 


A solidez me abraçava em angústia, no peito uma armadura incapaz de proteger dos danos irreversíveis dessa conformidade pegajosa. O corpo obedecia à depressão intitulando que a pequenez em mim não só era tamanho, mas na potência, pois se não podia conter essa viscosidade insalubre a desfazer os risos, não era capaz de enfrentar um mundo maior. Me encaro no espelho do corredor e desconheço pra onde. Estou? Talvez de medo, talvez de fúria, quem sabe o que se deu pra sair daqui. Em mim é muito vasto. Ensaio a próxima fuga. 


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Anti-horário

Quis te revelar em versos 

as preces conjugadas 

no fim de partida 

enquanto observaríamos 

o calor reluzente 

das letras 

Maiúsculas 


Repousar teu dorso insensato 

no centro dos seios 

e rogar por um destino 

que ajude o riso 

contínuo 

o fluxo elementar 

dos riachos verdinhos 


Se o mundo acabasse 

em melodia 

faria versos 

toda a vida 

e reencarnaria 

em teu nome 


Teu gesto urbano 

desmedido e insujeitável 

Transpirando

insolúvel 

fomos confundidos 

com os contornos

Das horas 

domingo, 10 de setembro de 2017

Passarinhos


Houve tempo 

das manhãs

Raiar cedo 

e olhos acesos


As batidas 

e o silêncio impreciso 

Tua casa 

aqui dentro 

Quentura dos 

teus cobertores 


O café dizia 

do acordar

Que descanso

Requentado 

em pleno domingo


Você ouviria 

as histórias antigas

De um tempo 

amarelado

O sol lá fora 

em convite

Como é bom 

sua rua liberdade 

Meu adeus 


Ainda há tempo

Pra discutir 

sobre o suor 

E o destino 

do apego 

Quanto ao receio 

Passageiros

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Escrevendo, 
Entrei em contato 
com a ausência de palavras 
no manejo breve e secundário 
das falas ininterruptas 

Em repouso,
a brasa do sol 
em meio ao céu riscado 
Desde o sutil sorriso 
da nuvem carregada, 
permanecemos calados 

Mesmo diante dos sons estrangeiros 

Contudo surgia enfim 
o sinto muito 
a guiar os olhos afligidos 
e as mãos desnorteadas 
Enfim o pôr do sol mudo 

Em anúncio, 
a boca colada ao silêncio 
declamando desvios 
a fim de nos assistir discutir 
sobre a discrição 
do amor sigiloso 

Assim ouvimos o mundo 
em ronco grave 
quanto ao despertar 
das ilusões possíveis 
dados ao ruído das auroras 

Escrevendo,
Lido com a falta de jeito 
em admitir que falamos 
qualquer língua 
que soe disponível 
aos ouvidos 
atentos de pérolas e sopro 

Cochichava silêncio 
a um mundo incapaz de ouvir 
o surrar das dores caladas 
e dormentes, descobriríamos
se soubéssemos -
que o mesmo mundo 
não escuta em voz baixa 

Escrevendo,
Escutei minha voz, que falta 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Gostaria de ver como soam em teus lábios contidos palavras de amor a um mundo menos violento

Pois é impossível ignorar a leveza das rosas murchando no inverno de lágrima e riso solto

À cor dos olhos intranquilos no vagão incinerado na avenida atlântica

Talvez você saiba o sabor dos tons da madrugada passiva na orla das intenções marítimas

Mas sem preparo ao mergulho teus braços buscam areia das horas que deslizam nas noites da praia deserta

E morre afobado quando em solidão o peito arfa feito maratona do mar em revolta

Enquanto a boca espumada entrega o sal das correntes vindo de um Portugal insosso

Transitaria nas palavras de amor embarcada nos sentidos que flutuam sonhos ancorados no castelo de memórias

E sem motivos de volta a maré em homicídio entre corpos estirados e balas de canhão o coração blindado

As multidões em brasa e a distante praia gostaria de te ver declamar que o amor está em tempo de guerra continue antes de afogar continue a nadar

domingo, 20 de agosto de 2017

Dedicatória

Guardei o verso mínimo 

Pra dizer das coisas

Que não diríamos se as palavras

Fossem amenas 

Pois quero te oferecer 

Uma rima breve 

Antes do riso e dos olhos

Que condenam versos poucos 

Tanta intenção 

Que sei lá 

Discernir e voar 

Até seus lábios aturdidos

Descobrirem o tom 

Da minha voz 

Ao inverso 

O silêncio desmedido 

sábado, 19 de agosto de 2017

Contornar a saudade do que ficou

Novamente a estrada vai se refazendo é possível pensar em coisas boas feito as nuvens de açúcar, os beijos de côco, sorve-te o dia inteiro de calor

A gente assoando o nariz desse caos orgânico, enquanto navegar na web é um pouco de privacidade às avessas, pegar o bonde andando, correr de salto no escuro em pedra portuguesa. 

As vezes acho que colonizaram até o tom das ruas, de viela em vão. 

Tem dias que a gente se sente como quem partiu e não quer voltar mas se a estrada é ampla e caminho em segurança, por que insistir em retornar? 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Canteiros

Vieram perguntar se não gosto de vida num dia quente tão morno que respondi sim mesmo não conseguindo sorrir eu acho que aquela pergunta me invadiu mais do que o brilho do sol

Dobrei as mangas da roupa de dias e não pude recuar com palavras nem os passos estava sentada e ergui a voz meu deus como eu queria correr entre as framboesas num mato verdíssimo 

Mas é que o brilhos dos olhos e das manhãs das maçãs tudo bem se chorar de vontade 

Tudo bem se não estiver 


http://youtu.be/yxWbSk7yGO0

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Gestos e amarras

Andei por perceber 
que meu amor te incomoda 
Demasiado e ébrio

E se vago na rua a te encontrar
Reprova os passos
feito vãos 
Quaisquer noite 
que não vos pertença 

Notei teu sorriso em sombra 
e tive pavor das intenções 
que mal faziam parte 
do meu repertório 
Assim domesticando os modos 
à parte confortável a nós 

Porém em mim tu fervia 
feito um bule assobiando "nós somos 
feitos de aço" 

Andei por perceber 
Que pertenço primeiro a mim 
Demasiada e ébria 

E os passos 
Assim soltos 
Desfaziam os laços 
Me sinto alegre por sair 

Me sentindo livre por vagar 
Se te encontro 
É provável que não seja na rua  
mas na lembrança 

Ainda existe uma faísca 
que chama "existe algo
que condiz com as cruezas 
de se amar" 

sábado, 5 de agosto de 2017

Devia te contar,
Não o vi passar 
dos inseguros passos

No que consta,
Intacto,
Esse passado. 

Dormi exausta, 
No sinal nos olhamos 
Na rua nos assistimos 

Sempre fui de reparar 
As mãos 
Mas passei direto
Quando me acenou

Não trocamos olhares, 
Embora não vi 

Hoje o dia morno 
Desfalece entorno da nuca, 
Deslizo pelas faixas 

Deixo o inverno 
Inventar desculpas
À medida que o pretexto 
Era te ver soar 

Basta 
Repassar,
Antes do dia findar,
Devia te contar 


Aguardo

Seria tolice
dizer que te escrevo
Mesmo que tente negar
o estômago revirado
Às horas distração
Às horas onde você está

E tal manhã
de nuvem cinza amarelada
surgiu feito uma florzinha
contente espalhando
calor pelo corpo
assim logo
cedinho


Uma breve pausa


pára


o coração



Quis te dizer isso
em segredo
a fim de não soar ultrapassado
revelar tamanho fogo
em público
Mas os segredos
constrangem até
as pupilas dos olhos
quando negamos
não nos ver

Mal tive tempo de decorar
teus planos
mas seria bom 
a cor do meu batom
em lábios
que pra mim
parecem flutuar
E dizer coisas infindas


As vezes acho


que você me machucaria


feito pancada de chuva



Ontem sonhei
com dentes quebrados
Não seria seguro
se dissesse
prever o futuro
(Sussurro)
Me dar conta dos juros
Das malas cheias de vento
Água toda estocada

Lá fora chovendo
Você aqui dentro

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Dia após dia
Eu via a morte 
se vestindo pra mim 
como um estranho conforto 

Cotidianamente
Os raios chegavam 
aos ossos 
feito efeito de calafrio 
que me botavam dúvida 
se o frio sentido 
vinha do inverno no rio 

Fui adulando cicatrizes 
sem temer olhares indignados 
por tamanha petulância 
dos corpos livres 

Era minha sentença sentir 
e me amargava o calor 
dos panos grossos 
das saias cumpridas a encobrir 
vergonhas avermelhadas

Oculta em minhas falhas 
fui decidindo acompanhar 
o cansaço das margaridas 
felizes em suas terras úmidas 

Assim permanecia
Dia após dia 
Regando rastros
Transitando a pé entre
dias mornos 
e febris 

Suando em agonia 
por dias seguintes ao raiar 
a sensibilidade desfilando  
Em praça pública 
o caminhar das estações 

Dia após dia 
Fui lidando com a morte 
feito companhia
Depressiva
como se caminha frente fria 

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Se for para morrer que seja

Se pudesse ser salva, 
Optaria por vulcão encarnado 
Em breve sonho,
Não por motivo de fraqueza 
Desgovernada,
Sinto alcance absoluto 
Por sutileza de abandono

Em restante subiria
Altares e por alívio os pulmões 
Feito discos usados, 
Me rumariam devido 
Envio de sinais restaurados 

Brinde à jornada 
Alardeada pelo suor da vista,
Assim a caminhada surtiria 
Efeito aqueles à busca,
Sem que o saiba,
Faísca 

Assim desejaria, mais um dia,
Mais quente, mais fogo
E todas as histórias,
Acima dos papéis tostados,
Vultos, alardes, Cinzas 
Brevemente engoliriam 
A cor da vida 

Assim quereria estar viva,
Lambida de chamas,
Afoita e fervente,
E deitaria solene 
em pleno ardor,
É por morrer de amor 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

transitivo

pego o caderno
e disparo
contra o efeito
do silêncio
que a multidão invoca

feito como se
no punho
portasse uma arma
uma droga
pra curar a violência
dos medos instantâneos

em curso
os faróis
imunes de sentido
acusam os classificados
me sinto heroína -
certamente
devaneio

nas laterais
do retrovisor
a vida vai correndo
a certos kilômetros
de distância
de algum lugar
que a gente procurou
e acho
que ainda mais
perdidos
mais ilhados

guardo o caderno
e com as mãos
livres feito folhas
de bananeira
dirijo à boca
um sorriso
não há motivo
a paz se instaura

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O momento é quem vai falar

fumar um cigarrinho encostada no muro a modo de alongar 
o tempo e prender o pensamento

e penso no que pensaria se não fosse a cor do céu de manha

empurro a grade, aceno ao porteiro 
que veio do norte também 
que agora conversa com minha mãe 
e me acena com os olhos também

subo os degraus ao lado da janela iluminada de marrom, 
primeiro andar é só tocar a campainha, 
aguardar em silêncio, 
suspirar faz barulho demais.

Olá boa tarde eu estou bem, quer dizer, acho que desassossegada

O que é isso?

Me diga por favor que se estou maluca é melhor correr

Observo os olhos a janela 
e aceitaria mais um cigarro 
mas não peço que abra

Deitada me vaga o que ia dizer

Mas sei lá


*boogarins - 6000dias

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Recorde

Dos pontos da língua
alcançado depois 
daquele encontro 
de pernas
os lábios 
sua mão em meu músculo 
Em pasmo achei que tivesse ouvido a paz surfando na boca
Eu agradeço suas mãos de Vênus
Os mares no ouvido 
Alcanço o templo da calma 
na ponta da boca 
Seus lábios 
Repetidas vezes 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Não temos tempo a perder

Sente a densidade 
dos átomos 
Além dessa paz
Desgovernada 
a paralisar Multidões? 
O que se busca? 
O que nos sobra
Além das mãos ao peito
De momentos profanos 
E estrelas apagadas 
Céu tempestuoso
Os bolsos lacrados
Tudo avulso no poema
Dizendo algo 
Que nos faz duvidar 
Das leituras 
Das normas de conduta
O amor fere é dentro
Do buraco
E a gente se enfia 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Não nos vemos se não saímos de nós

Embora espécime 
Fogosa, atentava quanto 
Aos ruidosos arcos Iris 
Que surgiam de súbito 
Espelhados pelo reflexo 
Dos vidros expostos

Frajola dormia íntegro 
Parcela das manhãs, 
Tardes, e quando descia o sol 
Escalava quaisquer lugar 

Gostava de revirar gavetas
Chispava em espanto 
Do que se revelava, 
Oculto por debaixo 
De globos solares 

Tinha certeza do apego 
A nos amargar olhares, 
Rasgava os tecidos 
Deitava sob a cama 
Na ausência dos corpos 

Livre e foguento 
Aos momentos de euforia 
Amava os cantos. 
Os buracos se enfiava feito cão. 
Mas era delicado, 
Se sabia da manha 
E reluzia muito. 

Ao fervor das pedras
Felino despojado,   
No inferno se dizia dos cheiros, 
Foi então que desvendei 
O maravilhoso cheiro
Na pele da nuca, 
Todas as flores na pele

Gostávamos de atravessar
O caminho mais longo 
Atentas às clareiras dos raios 
Os reflexos intensificados 
Por passagem lânguida 
Dos tons vertidos 
Pela manhã ensolarada 
Doíam diante 
Às banalidades 

Mediante às horas líquidas 
Frajola descobria
A ilha desconhecida 
No fundo 
De onde 
Não se pode chegar 

É preciso sair de si 

*título trecho O conto da ilha desconhecida, j. Saramago 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

você tem o jeito
das coisas plenas
deixadas pra admirar
quando o suor
escorre da cara
por favor
não me fale
que estou falando
de amor
novamente
deixada na cama
o conforto
e vícios pra lidar
é só por precaução
narrar aos que
sentem as veias
a gritar
um pouco do
seu gosto
de coisa leveza
além da confusão
dos plenários
e o incêndio na Candelária
os jornais censuraram
seu modo to be
agora só a figura
de sua estúpida calma
desgosto constante
a nos aglutinar
quando retorna à casa
é um modo de alma
descalça da rua
toda em agonia
a cantar

"roubaram o véu
das manhãs"

[sinto agora
os ventos da estação
repensada na pele
vestida de gestos

entregues atos
lentos e silenciosos
de fantasias criadas
em coro do sonhar

inverno lá fora
destoado das cores
a deslumbrar]

conduzido por águas transtornadas o ato de afogar

há um deserto
imensificado
de mágoa
em nossos corpos
desnutridos
das cores que
irradiam
dos dias nas peles
é sobre os comas
das palavras irreguladas
por chegar
e aconchegar
o corpo na ilusão
da leveza
das conduções
assim feito rio
as correntes
nas palmas 
vertidas de contusão
vestido de esperança
os beijos
os bailes
nossos corpos
amenos 
há um deserto
surtado
de instruções
no entanto
o movimento
recorte
à vida
pulsando 
por mares intransitáveis
é possível
deitar e trancar 
os olhos
deleitados
pela seca
impelida
de transbordar 
é que há um deserto
irreconhecível
instigante
nos conduzindo
a naufragar 

domingo, 18 de junho de 2017

eu que não saí de casa a bater porta e suprimi gritos engavetados atenta ao bafo do mundo pedindo que calasse a boca a qualquer gesto de afeto; vacilante quanto à sombra de antepassados desconhecidos, assino por causas de transtornos inexplicáveis dados às autoridades, essas que atrelam a mim responsabilidade por um mundo assombroso, entretanto ignoro-as em meu tribunal. carrego na face um susto profundo e assopro antes de levar à boca e mais outras besteiras que se ouve sem saber o porquê a gente aprende a resignar quando é hora de pisarem no seu crânio pedindo que sorria. luz lá na frente do buraco que você tá metida até início da próxima vida, mas veja se é possível permanecer impávida diante do poder dos solos, das águas, dessa potência de voz enterrada. as flores! perfume de lágrima, tão despida de armadura é então gentil relevo, veludo meigo as veias rubras, posso falecer esparramada entre o sedoso amor das pétalas e a sentença dos espinhos 

é preciso muito mais do que sumir. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

sal

estou triste
queria estar te recitando
os poemas de amizade
que li nos cadernos
e decorei
mesmo falhando
disposta a demonstrar
que o pensamento
te incide

suas mãos
distanciadas
ocultam as linhas
do destino
a nós costuradas

li nos poemas de Drummond
sobre a solidão
dos números
e das cores
Van Gogh sorriu
dizendo adeus

você desfalecia
não apenas na sombra
dos galhos
ou da ressaca
do outono no mar

seu pelo
em harmonia
arrepiando
as vezes no tom
dos músicos
velozes em seus dedos
no percurso
da estação

o vento da paisagem
entre tantos sinais
devagar a face
despida do amanhã
restaurada pelo
porta retrato

as vezes no ardor
da noite introvertida
só você de perfil
nas memórias
coberta de flores

estou triste
pois só recordar
o semblante
atravessado pela poesia
me faz querer chorar


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Tenho coisas importantes a falar mas antes disso já viu o tamanho da lua sob os corpos desatentos? É que o seu cheiro de erva daninha e o medo tudo envolvido no céu da noite fria. Todo Rio gargalhando da gente e as bocas desatadas, o barco lá no cais e a gente pisando tudo como um chão de amarelinha. Todos transando e os corpos estirados, ao falar das cores as transfigurações os invernos aproximados, talvez não tenhamos falado do futuro sendo onipresente o que se vê a essa hora na escuridão. Então se sente, bota um disco alto e vamos torrar o finzinho da memória que nos sobra, é que o amanhã nem se vê. Não tô conseguindo falar sobre o presentimento no centro das atenções desmotivadas por um frio que tá mais dentro do que fora, mas é que você tá inclusa, lá no fundo, pode escutar? 

Vamos recomeçar 

terça-feira, 13 de junho de 2017

Relicário

eu vejo como o mundo
te agride 
ladeira abaixo
dos instantes
insistentes em fazer
choro do que te toca 
é que o sol te ama
a lua e eu aqui miúda
te amando 
com a força veloz 
dos moinhos 
e das asas da libélula 

sei dos seus esboços 
mas pouco se sabe
da solidão 
te impregnando 
só essa sombra
queimada de fotografias
o muro de pedra
som dos seus pés 
indo rumo a nada
que nos constitua 
como um par 

e lamento que não 
possa enxergar
toda poesia 
que me faz te dizer 
como é lindo 
saber seus planos
deleitada sob o retrato
afundado pela manhã 
das horas não dormidas 
assim feita de aço
e lágrima seu peito
tão delicado 
seu sorriso
apagado na areia 
das estações 

sem que saiba 
decorei seu abismo
todos os destinos 
e seguiria contigo
mesmo que as palavras
além de nós
desfilem inibidas 
a busca de conforto
em lábio selado
assim deliro 
por seu gosto
como se preferisse
sua fonte inteira  
às águas do planeta 
ou todos os espaços
só coubessem
no buraco
que você se enfiou
e no qual me lancei
pra tentar te abraçar 
e dizer que tudo
basta calma
pra alma 
descansar 

posso te ajudar
a enfrentar o afeto
dos planetas em órbita 
as vagas impressões 
o desconforto do verão 
ao seu lado
enfim te transpassar 
além dos 
limites do corpo
te ver passar 
mal sabe você 
o bem que faz 
te amar