café e dores

café e dores

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Aos pés do altar

Tomai, deleita desse corpo
Santo fruto de formas
Transforma no ato
Deforma

Bebei até engasgo
Pasmo enfia o gozo
Boca à fora
No grito

Agrido teu sopro
Em susto me visto
Tornado zumbido
Pé do ouvido

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Quase não tenho você em mim

Ainda fumo aos fins de semana e falo sacanagens em voz alta sem tremer os puritanos. Você permanece na minha lista de chamadas perdidas. Eu perdi a nitidez que existia em meus olhos de indecisão e lembro de seus lábios ainda úmidos de saciar vontades que nunca serão minhas. Não te quero nesse precipício que insisto em exibir e se te coloco em minhas poesias é pra amenizar a queda de tantas primaveras hostis. Não peço carona em seu peito vadio porque a viagem é longa demais e essa rua não tem saída, sabe. São muros e concretos tão frios que hoje o inverno me dá boa noite antes de amanhecer seus olhos calados novamente. O cheiro da outra te trará saudade de casa mas não tem como voltar porque você cresceu demais. Ao longe ainda ouço os pássaros que fotografei pra te mostrar uma manhã sonâmbula e sem querer ensinei a partir apenas com o remorso no bolso por não ter feito morada em mim. Há um pedaço do céu que eu te doei e agora o café grita no fogão implorando para não doer tão cedo assim.

(2015)

Guardo nessa carta saudade e um pouco do sal desse meu mar

Os músicos da sua cidade herdaram o seu sotaque e nas estrelas as pontas apontam pra nós, você ao norte e eu desnorteada. Quantas borboletas repousaram a metamorfose em seus cabelos? Você pode morrer agora antes de ler essa carta e isso seria a morte da minha literatura, de meu coração arcaico e de tantos planos ainda não pensados. Acho que chove em alguma parte da cidade e você cresceu cedo demais para um homem com medo. Eu tenho tantos segredos mas não superam os meus medos. Esse avião pousa às 21h em Santos Dumond no horário de Brasília. Vê se me guia.

Aceitar o seu amor seria confessar a mim que te amo mais do que deveria.  O que tento te dizer não se coloca em frases, grades ou linhas. Eu ouço o zumbido das teclas sendo disparadas como balas invisíveis contra mim. Ouço meu sangue fluindo por veias que rezam para serem cortadas, e sinto os relevos do meu corpo gemendo por você aqui me olhando enquanto te escrevo. As luzes dessa cidade estão tão cansadas. E agora eu não quero falar seu nome. (serei escrava de seu nome). Daqui a sua luz quase não chega então eu tento te imaginar no meu escuro, sendo sugado e se aquecendo porque a tempestade não tarda a chegar. Eu sinto os pingos metralharem os ombros e se preciso de alguém agora eu penso em seu nome. Apertado. Miúdo.

É muito triste os olhos do motoqueiro no vagão das quatro? É muito triste aqui. Eu quase não vejo brilho, sabe? E se choro agora é porque ouço os trovões de toda seca desses meus tão íntimos 40 graus. Semi-aberta, digo que eu não sei onde esconder que durmo tranquila sabendo que existe você quando acordar. Eu falo é dessas neuroses que podem te assustar a qualquer instante, mas me avise o motivo de ir embora quando a música acabar. Olhar seus olhos e tomar a pureza ainda verde, no entanto só os vejo tão vermelhos a fim de me desnortear quando admitir que sou sua. Eu nunca fui nem minha, entende? Você consegue sentir o que sempre escrevo sem nem mesmo admitir? Eu não consigo ver o arco íris, estrela cadente ou pecados impossíveis. E vendo meu corpo por salvação. Seja da praga, do amor, dessa carne que torra os meus neurônios bons. Só a ressaca de você basta para que consiga escrever um livro de uma só página. Meus pais estão brigando na sala e eu perdida no quarto reparando na solidão que me ponho submetida. As vezes acho que eu escolhi ser desse jeito, e ardo um pouco menos quando me aceito. Então eu tenho motivo pra chorar sim e não falar de amor até morrer dele. Eu não gosto de falar, entende? Eu gosto de ouvir um solo que me faça querer morrer enquanto escrevo. Gosto de ler suas reclamações às seis da manhã. Você é o meu café. Tudo isso faz muito sentido. Você consegue sentir?


(2015)

Acabou chorare

Há baianos antigos gemendo um choro brasileiro e nesse aeroporto o preço do pão de queijo é mais caro do que em Minas. Sou virgem de amores, repito. Isso é Rio de Janeiro. Toda essa gente comemora fevereiro com um sorriso que só aparece nos carnavais. Tem beijo com gosto de Skol e à noite as moças de família perdem o pudor nas mãos de algum malandro fantasiado. Não tem bagagem hoje. Não tem roupa limpa pra amanhã. Tem essa vontade de morrer enquanto o bloco passa. Eu quero esse calor da loira dizendo que amanhã vai amanhecer bonito pois tudo passa e que hoje estamos solteiros. Tem gente pulando nessa festa da carne e há quem condene o erotismo em tudo o que escrevo. À noite o calor não termina e nem a folia esfria.

Há muitas despedidas nesse aeroporto cujo preço do pão de queijo é quase tão caro quanto o amor.

*Escrito no aeroporto do Rio numa segunda de carnaval enquanto escutava Acabou chorare de Novos Baianos em fevereiro de 2015
seja o meu João ou o seu
quem morre ou mata não somos nós 
é o amor que se escalda escurecendo.
é de paz que estampo as paredes mas o caos encarde até os pulmões.
quebrar promessas ou ferir multidões eu não preciso.
amor é isso, a poesia ganhando título. 

são tantos títulos e muitas preces mas sem saber o porquê da escassez de seus olhos.
é água isso que você chama de lágrima? 
quantas garoas em becos do rio... 
não escrever sobre isso é suicídio

o mar já secou

os vizinhos gritam depois das três da manhã e o interfone toca:
é o sono que não vem

(2015)

amem

deixando a poesia no mundo como se fosse aquele susto hino de misericórdia ou uma carta extraviada do destino pois a minha identidade é anônima


a cor do esmalte desbotou enquanto roía o tempo líquido e as palavras distraídas se transformaram em oração


amem amem


deixo os rabiscos no armário pois só creio no descanso que almejo desde a primeira falta de rima no planeta de homens evoluídos

não há mais chances de viver em olhos rasos mas se a maré sobe o dilúvio cai arrastando discurso sobre a seca no coração de quem naufraga no planeta terra

somos compostos por água, poesia e despedida quando a ferida exposta gera matéria prima então exponho ao sol um pouco de rima mofada para suprir a sede que a poesia desconhecida tem de se afogar de pavor no amor

amém

(2015)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

sento a escrever suave 

tive tempo de buscar 

palavras inventivadas 

assim nos encaro impotente 

diante do manejo de sentidos


logo pela manhã pão quente 

com manteiga fria, 

cigarro oco pra abafar jejum, 

surgem as palavras dormidas 


passei por um sonho longo 

de personagens ausentes 

em memórias mais remotas 

antes de acordar 


o sol bem mansinho

essa mulher na rua escrevendo 

um livro, ao chão, 

seu corpo inscrito

desses olhos aflitos, passagem


o vento muito brando 

peço desculpa por insistir 

tanto quanto ao destino 

por não saber sequer 

há volta se irmos?